O INTERFERON
A terapia da hepatite C convencionalmente, tem sido realizada com a utilização do interferon alfa recombinante, conhecido pela sigla de IFN-a na dosagem de 3 milhões de unidades, 3 vezes por semana na forma de injeção sob a pele ( via subcutânea). Este procedimento possui eficácia limitada na erradicação do vírus da hepatite C (VHC), com êxito limitado entre 10 e 20% de casos. No entanto, foram obtidos muito conhecimentos por parte dos pesquisadores a partir dessas experiências e que serviram de base para melhoria das condições de tratamento e resposta virológica.
O sistema interferon recebe esse nome porque compreende um grupo de proteínas secretadas por células em resposta a estímulos virais, ativando o sistema imunológico. O medicamento IFN-a é uma reprodução sintética do interferon produzido naturalmente e foi autorizado em 1986 pelo FDA para inicialmente tratar leucemia e a seguir a hepatite B, para a qual possui um índice de êxito variando de 30 a 40%.
A resposta do organismo ao tratamento da hepatite C com o que pode ser considerado como um êxito corresponde à normalização das transaminases durante o tratamento e ao desaparecimento do vírus da hepatite C (VHC RNA) do soro pelo método do PCR qualitativo também durante o mesmo. A manutenção do desaparecimento do vírus por no mínimo seis meses após a interrupção do tratamento é considerada como uma resposta sustentada. Já foi demonstrado que 95% dos pacientes que se tornam negativos para o VHC RNA após o tratamento permanecem nessa situação por períodos de até cinco anos, com melhora histológica.
Algumas pesquisas tem mostrado que o interferon também pode melhorar as funções do fígado, diminuindo a fibrose, mesmo que após o tratamento o vírus não tenha sido eliminado.Para as pessoas com hepatite C crônica, o tratamento normal recomendado, dependendo do genótipo do vírus, carga viral e do estágio da fibrose pode durar de seis a dezoito meses, se o paciente der sinais de estar respondendo. Na altura da oitava semana, o médico saberá se o tratamento está funcionando; se não estiver, o tratamento é interrompido.
O consenso atual entre os médicos (o qual pode variar
em função de cada caso e da avaliação médica) é de somente tratar com interferon os pacientes que tenham o PCR positivo, as transaminases acima do
dobro dos valores considerados normais, confirmadas em três ou quatro exames
no decorrer de quatro a seis meses, e um resultado de biópsia
com grau de fibrose dois ou superior.
O tratamento somente poderá ser feito após todos os exames clínicos,
laboratoriais e físicos, necessários para verificar a tolerância pelo
paciente ao interferon e se houver associação, à Ribavirina. Não estando na situação acima,
recomenda-se tentar outros tratamentos, assim como manter um permanente
acompanhamento médico até se atingir os valores de consenso, quando então
deverá iniciar-se o mesmo.
Algumas pessoas não podem utilizar o tratamento com IFN-a; pacientes com hepatite auto-imune, hepatites crônicas B ou C e com fluido (ascite) no abdômen, com sangramento nas veias dilatadas do esôfago ou com confusão mental (encefalopatia) só devem ser tratados clinicamente. Outros, para os quais não é recomendado o tratamento são pacientes com problemas de tiróide, no coração, pulmão ou doença nos rins, infecções, ou pessoas que receberam transplante de órgãos (exceto de fígado) e estão tomando medicamentos anti-rejeição, bem como pacientes em estado de depressão ou com uma história de tentativas de suicídio. O interferon não deve ser dado a mulheres grávidas, nem para o pai planejando ter filhos; pacientes com abuso de álcool ou drogas não devem submeter-se a essa terapia.
Os efeitos colaterais relacionados
ao Interferon são: sintomas gripais (astenia, cefaléia, dores musculares), fadiga intensa,
insônia, depressão,
baixa dos glóbulos sangüíneos, dores de articulações, disfunção
da tiróide, hipertrigliceridemia e outras alterações neuropsiquiátricas, diferentes em
cada paciente. Alguns pacientes apresentam ainda retinopatia,
alterações auditivas e gastrointestinais, enquanto outros não são acometidos de nenhum efeito colateral.
A maior parte dos doentes consegue completar o tratamento, porém em alguns
casos é necessário a redução das dosagens ou a sua descontinuidade.
As análises dos estudos mostram a existência de fatores preditivos de resposta sustentada, associados ao hospedeiro e ao próprio vírus. O mais importante fator preditivo de resposta parece ser o genótipo, pois pacientes com genótipo 2 ou 3 apresentam excelente resposta à terapia combinada (próxima de 60%), contra 30% daqueles com genótipo 1b. Portanto, a determinação do genótipo é importante para predizer a resposta, bem como para determinar o tempo de tratamento. A carga viral tem valor relativo, pois sua importância restringe-se ao genótipo 1, enquanto os fatores grau de fibrose, idade e valor da gamaglutamil-transpeptidase assumem importância menor.
Os não respondedores à terapia unicamente com interferon IFN-a podem ter melhores chances de eliminar o vírus utilizando a associação interferon + Ribavirina (IFN-a+RBV). Os estudos mostram que o tratamento feito desta maneira aos não respondedores atinge valores de êxito próximos a 20%; os pacientes com doença recidivante (que retornou após ter negativado) tem tido resposta de êxito de até 50%.
Pacientes não respondedores ao tratamento unicamente com interferon ou associado à Ribavirina tem sido tratados com um interferon de consenso denominado Infergen (Interferon alfacon-1), que é um interferon gerado pela bioengenharia e é uma seqüência consensual de subtipos de interferon-alfa. Parte-se do pressuposto que se as propriedades naturais dos diversos interferons-alfa forem somadas, sua ação no combate ao vírus será mais eficaz do que agindo sozinho.
Este tipo de interferon também tem se mostrado promissor, conseguindo ampliar o leque de respostas ao tratamento, principalmente quando associado à Ribavirina. Pacientes tem sido tratados com diferentes protocolos,utilizando dosagens de 9 mcg ou 15 mcg e apresentados resultados animadores, com elevado índice de normalização da ALT e negativação do vírus.
O perfil de efeitos colaterais demonstrado pelo medicamento é muito similar ao mostrado pelo IFN-a, ou seja: sintomas gripais (astenia, cefaléia, dores musculares), fadiga intensa, insônia, depressão, baixa dos glóbulos sangüíneos, dores de articulações, disfunção da tiróide, hipertrigliceridemia e outras alterações neuropsiquiátricas; as restrições ao uso do medicamento também se mostram similares àquelas geradas pelo IFN-a.
Uma das grandes esperanças no tratamento da Hepatite C recai sob uma nova forma de apresentação do interferon, chamado interferon peguilado. O processo de produzir esta nova forma de interferon consiste em unir uma molécula do mesmo a uma substância sintética, o polietilenoglicol, cuja sigla é conhecida como PEG. O PEG envolve a molécula de interferon, fazendo com que o organismo não reconheça esse interferon como um agente estranho; graças a essa barreira, todo o processo que ocorre dentro do organismo, desde o momento em que o medicamento foi injetado até sua eliminação, fica mais lento, fazendo com que o interferon permaneça mais tempo agindo antes de ser eliminado.
Dessa maneira, há maior tempo de contato entre ele e o vírus; por isso o interferon peguilado tem uma ação mais eficaz na redução da multiplicação do vírus. Pesquisas dos laboratórios fabricantes tem mostrado que as moléculas de interferon peguilado podem ter diferentes tamanhos, peso e eficácia e aparentemente as moléculas de maior tamanho parecem agir bem melhor sobre o efeito de supressão do vírus.
Uma das grandes vantagens do interferon peguilado é a melhoria de qualidade de vida do paciente, no que diz respeito à utilização do medicamento, uma vez que o mesmo é utilizado em dose única semanal, ao contrário do interferon convencional, que deve ser injetado em três doses semanais. Isto implica numa diminuição dos efeitos colaterais que o remédio possui.
O tratamento consiste da associação do interferon peguilado + ribavirina e as pesquisas tem demonstrado que o medicamento possui uma resposta virológica de aproximadamente 56%, o que representa uma grande melhora em relação ao tratamento do interferon convencional + ribavirina.
O medicamento interferon peguilado já teve seu uso regulamentado nos Estados Unidos, através do FDA, órgão federal que cuida de medicamentos e no Brasil já está autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária a comercialização do interferon peguilado de dois fabricantes, respectivamente Schering e Roche.
Os resultados obtidos em pesquisa do medicamento no Brasil tem demonstrado valores bem animadores, o que está fazendo com que a classe médica passe a olhar protocolo interferon peguilado + ribavirina como uma maneira mais eficiente de conseguir uma negativação do vírus mais rapidamente. Infelizmente, este tipo de protocolo embora tenha sido adotado recentemente pelo Ministério da Saúde, ainda não contempla a grande parcela dos portadores de Hepatite C do nosso país. Veja mais sobre o assunto clicando aqui.
Os maiores benefícios aparecem em pacientes com genótipo 1; os genótipos 2 e 3 possuem uma boa resposta com o interferon convencional, o qual deverá continuar como a primeira opção de tratamento.Os efeitos colaterais são similares, porem como a aplicação é semanal, somente no primeiro ou segundo dia é que os mesmos são sentidos com maior intensidade, permitindo ao paciente um melhor estado físico nos dias seguintes. Isto resulta em uma melhor disposição para continuar o tratamento até o final do prazo, o que foi comprovado durante estudos.
As restrições ao uso do medicamento também se mostram similares àquelas geradas pelo IFN-a. Vale ressaltar que o índice daqueles que abandonam o tratamento por graves efeitos secundários é igual àqueles com o interferon convencional, ou seja, 12% dos tratados.
Muitas das informações acima disponibilizadas baseiam-se no fato de que muitos de nós, integrantes do Grupo Esperança, tivemos a oportunidade de vivenciar e sermos tratados através de diferentes protocolos com o medicamento interferon, tendo alguns negativado, enquanto outros não responderam à terapia; todos sentimos os efeitos dos medicamentos ( na maior parte dos casos, facilmente suportáveis). No momento, muitos de nós estão com o vírus indetectável, mantendo o acompanhamento médico, na esperança de que a vitória contra essa doença seja a definitiva. Esse momento de alegria faz com que esqueçamos os efeitos colaterais que os diversos protocolos da terapia provocaram e serve para que incentivemos os colegas portadores a utilizarem corretamente os medicamentos seguindo à risca as orientações médicas, na certeza de que no futuro essa mesma alegria que sentimos possa estar mais e mais ampliada.
IMPORTANTE: O uso de medicamento deve ser realizado sob supervisão médica.
Fontes Bibliográficas:
Evaldo Stanislau A. de Araújo - Correlação Clínico Patológica da Quantificação do RNA do VHC
Henrique Sérgio Moraes Coelho - Tratamento da Hepatite crônica C: Sociedade Gastroenterologia R. Janeiro
Adávio de Oliveira e Silva/Laboratório Pizarro - Tratamento da Hepatite C e de suas formas evolutivas
Carlos Varaldo - Convivendo com a Hepatite C
http://www.fda.gov/cber/label/pegihof101602MG.htm
Sociedade Brasileira de
Hepatologia/Ucifarma - Hepatite C
ROCHE - Brasil - O que você precisa saber sobre hepatites
Recomendações da American Medical Association