2015 , o ano que promete ser divisor de águas no tratamento da hepatite C

 

0/01/2015 - Para os portadores da hepatite C, lá se vão mais de 11 anos em que apenas uma terapia, composta de dois medicamentos antivirais, o interferon peguilado (injeção aplicada uma vez por semana) e a ribavirina (comprimidos via oral com ingestão de 4 a 5 unidades por dia), é utilizada. Mesmo após 2012, com a adição de mais um medicamento via oral, chamado inibidores de protease, a eficácia do tratamento, que dura de seis a 12 meses, não ultrapassou os 40%. Significa, então, que, de cada 100 pacientes infectados com o vírus da hepatite C (VHC), 60 não conseguem ficar curados. Assim, o caminho da história natural da doença é percorrido e estabelece no organismo a cirrose hepática com possibilidades de evolução para o câncer de fígado.

Atualmente, a hepatite C é a maior causa de indicação de transplante hepático. Como não há vacina e a doença dificilmente apresenta sintomas antes de agravar, mais de 80% das pessoas que estão infectadas com o VHC não sabem de sua condição.

Por isso, torna-se importantíssimo alertar a população sobre essa séria e incidente questão de saúde pública, para que façam o teste de detecção nos centros de testagem e aconselhamento ou nas unidades de saúde de seu município e, se eventualmente o exame de detecção for positivo, deverá ser atendido num centro de especialidade, preferencialmente com infectologista, gastroenterologista ou hepatologista.

A grande esperança

É importante ressaltar que todo medicamento para hepatite C é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). E a ciência médica já evoluiu ao ponto de estarem fabricando três novos remédios: sofosbuvir, simeprevir e daclatasvir. Eles elevarão a chance de cura de 40 para 95 a 100%. O melhor é que essas drogas ainda podem ser indicadas para a coinfecção HIV/HCV e para transplantados e candidatos a transplante de fígado.

Em uso isolado ou em associações entre eles, dependendo do paciente, o tempo de tratamento com esses novos remédios é reduzido de 12 meses para apenas três. E eles não apresentam as fortes reações adversas do tratamento convencional.

Já utilizados nos Estados Unidos e outros países da Europa, esses medicamentos estão para serem incorporados no Protocolo do SUS e, quando acontecer, se tornarão possíveis de prescrição para a população que deles necessita. No mercado privado, são de altíssimos custos, chegando a aproximadamente R$ 200 mil o tratamento de 12 semanas.

No entanto, para que o acesso às novidades aconteça de forma rotineira e administrativa, eles ainda precisam passar por análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão Nacional de Insumos e Tecnologia, o que pode demorar vários meses, indo contrário, assim, à necessidade dos pacientes, principalmente os que já apresentam graves formas evolutivas da doença e já fizeram tratamento com os medicamentos anteriores sem sucesso. Esses estão perdendo a própria vida.

Com receio na demora das aprovações desses órgãos, as associações de pacientes estão fazendo mobilizações de alerta e de apelo. Em paralelo, está havendo o comprometimento do Ministério da Saúde (MS) para incorporar o quanto antes esses medicamentos no SUS.

Com a participação do Departamento de DST, Aids e Hepatites, o MS conseguiu uma relevante redução dos valores iniciais pedidos pelos fabricantes. Assim, com a mesma quantia paga aos 11 mil tratamentos que fez no ano passado usando os medicamentos atuais, com os novos, de eficácia quase total e sem efeitos colaterais, poderá tratar 30 mil pessoas.

Nós, pacientes e representantes das ONGs, estamos acompanhando de perto a situação do registro e da distribuição desses novos medicamentos. Um deles, o daclatasvir já foi registrado. Já o sofosbuvir e o simeprevir estão na Anvisa, para o competente registro, o que, segundo nos informaram, só não aconteceu pela ausência de apresentação de alguns documentos pelos respectivos fabricantes. Segundo as últimas informações, os documentos teriam sido recentemente apresentados e em breve os medicamentos deverão estar registrados.

Passando desta fase técnica do registro, que inclusive conta com o pedido formal de urgência do MS, a fase relativa à Comisão Nacional de Tecnologia e Insumos Estratégicos deverá ser bem rápida, assim como a edição da portaria.

Estamos todos muito ansiosos, não só pelos excelentes resultados, mas principalmente pelos quadros de evolução que demandam uma assistência imediata, sob pena, inclusive, de morte de alguns portadores.

Não desejamos ter de recorrer à Justiça para ter acesso a esses novos medicamentos. Queremos acreditar que sejamos contemplados na distribuição pelo SUS até meados de março.

Se não, após esse período, talvez pacientes vejam como única alternativa, principalmente os que estão com um grau avançado da enfermidade, ajuizar uma ação ordinária contra o plano de saúde, caso o possua, ou um mandado de segurança contra a autoridade pública de saúde de sua região. Essa é a atitude a ser tomada quando a possibilidade de acesso só apresenta a saída por meio do "remédio jurídico". O intuito tem de ser solucionar, o mais rapidamente, o problema de falta de fornecimento dos medicamentos para os pacientes necessitados.

*Jeová Pessin Fragoso é diretor presidente do Grupo Esperança, de apoio aos portadores do vírus da Hepatite C da Baixada Santista

http://agenciaaids.com.br/home/artigos/artigo_detalhe/465

 

 

 
 
 
 
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