O QUE É
Conselhos
médicos para quem descobriu ser portador de Hepatite C.
Mantenha a
calma! Você se sente bem ( tanto que só descobriu a doença ao doar sangue
ou em um check up de rotina... ), e vive um pequeno conflito, estar
doente sem nada sentir! Sente-se ainda com medo, raiva, com culpa, enfim com
muitos sentimentos negativos. Por isso, calma e um pouco de conhecimento serão
muito bons, e é isso que você encontrará no roteiro feito baseado no
conhecimento médico atual e em minha experiência ao longo de vários anos
cuidando de pacientes com a doença, cujas dúvidas são habitualmente aquelas
que esclarecemos a seguir.
-
Como eu me infectei?
É importante
destacar que nos Estados Unidos apenas 10% das pessoas infectadas não sabem
como se infectaram e que nessas havia uma situação social mais precária.No
Brasil entre 30 e 40% das pessoas desconhecem como se infectaram.Se
realizarmos um exame de consciência e memória, certamente em alguma situação
das descritas anteriormente poderemos encontrar a maneira do contágio.É
fundamental que o paciente seja fiel nas informações prestadas ao médico, que
por sua vez deve ser discreto e sigiloso sob todos os aspectos inerentes ao
relacionamento médico-paciente .
Destacamos ainda
que a Hepatite C é doença democrática que não escolhe cor, classe social ou
grupos específicos.NÃO SE SINTA MARGINAL E NÃO ACEITE DISCRIMINAÇÃO.COMBATA
O PRECONCEITO !
-
Mas afinal o que é Hepatite C ?
-
Como o VHC se comporta no meu corpo?Qual é a evolução da doença ?
Ao
contrário do que você possa imaginar, nesse tópico daremos informações mais
realistas do que sensacionalistas. A Hepatite C é uma doença potencialmente
fatal e grave, portanto muito preocupante, mas que na maioria das vezes evoluí
de forma benigna.
Não
conhecemos ainda exatamente tudo que ocorre à partir da infecção mas, de
forma sucinta, sabemos que o VHC se reproduz no fígado e em alguns sítios
extra-hepáticos numa velocidade e quantidade enormes ( na ordem de 1012
vírions por dia com vida média de 3 horas). Da mesma forma ele é destruído
nessa quantidade e velocidade, de forma que um equilíbrio se estabelece entre a
produção e destruição do vírus, havendo uma quantidade constante de VHC no
organismo. O VHC é destruído pelo sistema imunológico do portador, que acaba
destruindo também o hepatócito infectado. No entanto o sistema imune é
incapaz, na maioria dos casos, de eliminar o VHC. Isso só ocorre mediante uma
resposta linfocitária altamente eficaz, rápida e compartimentalizada no fígado.
Tal só ocorre em aproximadamente 20% dos pacientes que se curam. Nos 80%
restantes há a cronificação, ou seja o VHC se perpetua. Ficou evidente que a
interação vírus-paciente é determinante para a progressão da doença e como
cada paciente e cada cepa viral possuem suas particularidades, as variáveis
determinantes do desfecho clínico tornam-se numerosas. Complexo, não é? Note
ainda que devido a grande velocidade de replicação viral, essa ocorre de forma
imperfeita, ou seja , cada geração viral é diferente entre si de forma que
cada paciente possuí uma população exclusiva e heterogênea(“quasispécie”).
Os anticorpos assim não conseguem reconhecer os vírus que se modificam
rapidamente e esse processo de diferenciação ao longo do tempo acarretou
diferenças regionais entre as populações de VHC que se divide em tipos virais
–1 a 6– com particularidades e patogenicidade diferentes. O VHC é um
organismo altamente capaz para atacar e sobreviver!
Entre
as habilidades desse agente uma das mais traiçoeiras é a de ser silencioso, ou
seja, toda essa guerra descrita ocorre sem manifestações clínicas para a
maior parte dos pacientes. A doença é assintomática! O sintoma que pode
ocorrer é um cansaço atípico, sendo os sinais e sintomas mais severos
detectados apenas em fases muito avançadas (cirrose). Não espere os populares
“ olhos amarelos”, “urina cor de Coca-Cola”, etc. Por outro lado a evolução
da hepatite é habitualmente lenta, levando décadas para que um grau de lesão
significativo ocorra. Além disso 80% dos portadores crônicos terão uma
progressão estável e pouco importante e apenas 20% terão cirrose, e desses
aproximadamente 8% terão câncer de fígado. No entanto é muito difícil
determinar com certeza como será a evolução de cada paciente, embora tenhamos
alguns dados demográficos, epidemiológicos e laboratoriais que nos ajudem. Não
sabemos ainda se esses percentuais evolutivos são definitivos, pois a doença
é muito recente e o número de casos acompanhados vai aumentar, fornecendo um
melhor conhecimento da História Natural da moléstia. No geral não fique
preocupado, pois só o médico munido de seus dados poderá avaliar em detalhes
sua situação, mas você tem uma
grande chance de estar bem. Não aceite o
terrorismo, não se torture, seja realista, lide com fatos!
-Quais
são os exames que eu preciso fazer ?
Para
confirmar o diagnóstico fazemos em duplicata os testes para detecção de
anticorpos contra o VHC, hoje basicamente restritos ao EIA de 2 e 3ª Gerações.
Nesse momento aproveitamos para procurar anticorpos contra outras hepatites, que
se estiverem presentes serão devidamente analisados e se ausentes indicam a
necessidade de vacinação contra as Hepatites A e B. Nessa primeira
etapa, aliando os dados epidemiológicos com os valores do EIA já podemos saber
se a infecção está ou não presente.Para a real confirmação do diagnóstico
devemos executar a pesquisa do RNA viral através do PCR qualitativo- e
é muito importante que seja qualitativo ou quantitativo com um limite de detecção
baixo para evitar o FALSO NEGATIVO. Aliás tenha em mente que todo exame de
laboratório está sujeito a falhas e imperfeições do método, portanto nenhum
resultado é 100% confiável e definitivo, dependendo sempre da correta
interpretação por um médico qualificado. Tal fato não significa que os
exames relacionados a Hepatite C não sejam confiáveis, pelo contrário, apenas
alertamos que devemos ter um elevado padrão de qualidade para que os resultados
sejam confiáveis.
Após
a confirmação do diagnóstico estabeleceremos a necessidade e o tipo de
tratamento baseados na biópsia hepática, na tipagem viral e em sua quantidade,
além de outros fatores clínicos, epidemiológicos, demográficos e
laboratoriais. Provavelmente você já conversou com algum profissional, amigo
ou leu algo sobre todos esses exames. Gostaria de alertar que existe no Brasil
uma situação IDEAL e outra do POSSÍVEL. Restrições econômicas, regionais,
de convênios, e outras nem sempre permitem que todo o necessário seja feito.
Mesmo quando todas as ferramentas diagnósticas estão disponíveis, freqüentemente
ocorre um uso incorreto ou excessivo dessas. Assim tenha em mente isso e discuta
com seu médico quais são os exames realmente necessários e opte pelos
métodos mais seguros, eficazes, simples e baratos, pois muitas vezes o
paciente paga pelos exames. Considerando tal fato podemos afirmar que indispensável
mesmo é a biópsia hepática. Os demais exames se estiverem disponíveis
serão muito importantes, mas não imprescindíveis. Vivemos uma explosão de técnicas
e métodos laboratoriais para determinar tudo que necessitamos. Há que se ter
responsabilidade na utilização desses, afim de evitar os custos excessivos e a
interpretação incorreta dos resultados.
Em
relação aos exames de avaliação da função hepática e extensão da doença,
estes são simples e de há muito são de rotina. Habitualmente realizamos um
estudo hematológico, provas de função hepática, pesquisamos doenças
associadas e fazemos uma ultrassonografia hepática. Eventualmente necessitamos
de endoscopia digestiva ou métodos de imagem mais sofisticados.
-Qual
é o tratamento para a hepatite C ?
O
tratamento para a Hepatite C começa muito antes do remédio! Na verdade
começa no diagnóstico pois quanto mais cedo a doença for conhecida e mais
precoce a decisão terapêutica, melhor. Notar que foi usada a expressão “
decisão terapêutica”. De fato, o tratamento deve ser ponderado entre o médico
e seu paciente pois não temos uma medicação 100% eficaz e as melhores que
dispomos possuem um custo excessivo e efeitos colaterais por vezes severos.
Assim, lembre-se que nem todos os pacientes vão evoluir desfavoravelmente e por
isso muitas vezes a decisão é não tratar! Nesses casos fazemos um rigoroso
acompanhamento médico e, a menos que tenhamos um remédio que certamente vai
curar o paciente (o que infelizmente ainda não ocorre), não tratar é o
melhor.
Após
a primeira medida “terapêutica”, o diagnóstico, recomendamos algumas ações
que vão melhorar o fígado e desacelerar a progressão da doença. Assim
não ingerir álcool é FUNDAMENTAL. Perder peso nos obesos, parar de
fumar e manter a glicemia sob controle, são medidas que recentemente
mostraram-se importantes. Evitar o contágio por outros vírus é muito
importante. A vacinação contra a Hepatite A e B nos susceptíveis e a mudança
de comportamento de risco para infecção pelo HIV são medidas que devem ser
tomadas.
Uma
vez que seja tomada a decisão pelo tratamento farmacológico, devemos
estabelecer um objetivo terapêutico. Para o paciente e mesmo para muitos
médicos o objetivo primário do tratamento é a cura, eliminação do VHC. Isso
no entanto freqüentemente não é possível pois os medicamentos disponíveis
dependem da interação vírus-sistema imunológico do paciente (que é modulado
pelos fármacos usados). Assim o insucesso é real quando esse objetivo é o
principal, pois não temos como interferir nessa relação vírus-sistema
imune-medicamento. Cada paciente é único! O que devemos ter como objetivo primário
é a melhora da histologia hepática!!! Estudos recentes demonstram que
mesmo em pacientes que persistem infectados, há uma significativa melhora do fígado
após o tratamento. Existem estudos em andamento que visam inclusive estabelecer
tratamentos de manutenção para não respondedores com hepatopatia avançada.
Assim, primeiro melhorar o fígado e se possível eliminar o VHC!!!! Isso
deve ser considerado pelo médico e pelo paciente antes de decidir interromper
um tratamento por falta de clareamento viral!!
Atualmente
possuímos como tratamento padrão a associação
do Interferon (convencional ou Peguilado) à Ribavirina. A dose e esquemas possíveis
são variáveis, sendo que o médico deverá analisar cada paciente para decidir
o que é melhor. Atualmente vivemos uma polêmica à respeito do Interferon
Peguilado, aparentemente superior ao convencional. Em minha opinião essa é uma
polêmica desnecessária pois o peguilado já se mostrou superior e pelo
menos é mais cômodo porque é semanal. Assim não se trata de polêmica
científica e sim mercadológica e econômica, pois se o preço do peguilado
fosse menor certamente esse já seria o único Interferon disponível ! Como
é assunto desgastante recomendo aos pacientes ficar fora desse duelo, deixando
ao médico a opção pelo que é melhor para si, e para as ONGs a briga pela
disponibilização dos melhores tratamentos, que no momento é o Interferon
Peguilado.
Nos
próximos anos, inibidores de proteínas virais serão disponibilizados e uma
nova linha terapêutica se iniciará. Como você percebe não estamos entrando
em detalhes e números, pois esses podem ser manipulados ou não ser absolutos
dependendo ainda de inúmeros estudos clínicos que são disponibilizados
continuamente. Peço que você converse sempre com seu médico ou acesse
os sites dos laboratórios ( clique em LINKS) para ter acesso a tais dados e se manter atualizado.
Saiba no entanto que para cada paciente há uma opção terapêutica satisfatória,
mesmo que não definitiva, e que essa opção pode ser até mesmo o não
tratamento!
Finalmente,
para alguns pacientes a única opção restante é o transplante hepático. Se
esse for seu caso confie na equipe que está cuidando de seu caso pois
certamente após o transplante sua vida será plena. Não tenha medo !
-E
agora, estou só ?
Pois
é, infelizmente você não está só! Mas esperamos que baseado nas informações
que você leu seja possível desmistificar alguns fatos, esclarecer mais pessoas
e, se você conhece alguém que possa estar infectado que a incentive a se
cuidar. Esperamos ainda que você se lembre que não está só porque nós
estamos aqui, profissionais e ONGs, lado a lado para lhe ajudar e dar apoio.
Recomendamos que você divida seus eventuais temores com outros pacientes, através
das ONGs, e tire suas eventuais dúvidas com seu médico. Mas, o que eu mais
recomendo é que você enfrente os fatos com maturidade e serenidade pois eles
podem ser melhores do que você imagina! E não se esqueça de ser feliz, pois
isso o VHC não consegue impedir! Um abraço.
Dr.Evaldo Stanislau Affonso de Araújo.
Especializado, Mestre e Doutor em Moléstias Infecciosas pela
FMUSP.