TRANSMISSÃO VERTICAL
Transmissão vertical do vírus da hepatite C
Um estudo publicado em da revista Medicina Clínica de Barcelona demonstra que mais
de 3% das mães com hepatite C transmitem a infecção a seus filhos, e
que mais de 1% das gestantes tem esta infecção, o que faz supor um problema de
saúde não desprezível.
O trabalho foi desenvolvido no Hospital de Cabueñes, em Gijón, e seu
objetivo era a prevalência da infecção pelo vírus da hepatite C (VHC)
em gestantes e a porcentagem de transmissão vertical a seus filhos. Para isso
se estudaram 2442 mulheres grávidas de forma consecutiva, e dessas 2329
chegaram ao parto e 113 abortaram.
Entre as gestantes estudadas se identificaram 29 casos (30 gestações
pois uma das mulheres teve dois partos durante o estudo) com presença de
anticorpos anti-HCV, o que representa uma prevalência de 1,2% das mulheres
grávidas. Das 30 gestações com anticorpos anti-HCV maternos, nasceram 30
bebes dos quais um resultou infectado (taxa de transmissão vertical de 3,3% e
uma incidência de neonato infectado por cada 2442 gestações estudadas; 0,041%
de todos os neonatos).
Das 30 determinações positivas, em 24 havia um RNA positivo detectado por PCR. A carga viral foi superior a 100.000 cópias em 15 pacientes (50%). O genótipo 3a foi o mais freqüente, seguido pelo 1b. Duas mulheres tiveram uma infecção concomitante pelo vírus da hepatite B e 3 eram soropositivas. 58,6% das mães desconhecia que tinha anticorpos VHC até o momento do estudo.
Quanto ao modo da infecção, 15 pacientes haviam sido toxicomonas por via parenteral, 12 haviam sofrido intervenções cirúrgicas, 9 tinham histórico familiar de hepatopatia crônica, 5 haviam recebido transfusão de sangue (4 delas antes de 1990) e 5 lembraram haver sofrido uma hepatite aguda. Em 8 dois casos não havia antecedente de risco conhecido.
Com
relação aos bebes, os 30 nasceram com anticorpos VHC, mas todos menos 1
estavam livre do vírus durante os primeiros 24 meses de vida, 16% nos primeiros
6 meses, 40% aos 12 meses, 40% aos 18 meses e 4% (1 caso) aos 24 meses. Estes
bebes não infectados tiveram todas as determinações do RNA do VHC negativas
por PCR. Cinco desses 29 bebes haviam recebido leite materno, por decisão das
mães, apesar de terem sido informadas dos riscos.
O neonato infectado apresentou um PCR do RNA do VHC positivo e
hipertransaminasemia desde a determinação do terceiro mes de vida. Sua mãe
possuía mais de 900.000 cópias/ml no momento do parto e estava coinfectada
pelo HIV, com CD4 de 160/ml e uma carga viral de mais de 10.000 cópias/ml;
recebeu tratamento com zidovudina, não amamentou e seu filho não ficou HIV
positivo.
Os autores do estudo concluem que uma prevalência de infecção por VHC de 1,2% das gestantes é um problema de saúde importante e que devemos ser conscientes para realizar estudos nos bebes. A história natural da infecção em bebes não está bem caracterizada, mas parece haver um prognóstico melhor do que a infecção de adultos. De qualquer modo, parece interessante fazer o diagnóstico precocemente, para se decidir alguma atitude terapêutica.
El Mundo (Espanha) 16 Janeiro 2003
Medicina
Clínica (Barcelona) 2003: 120 (1); 10-3
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